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sexta-feira, 8 de junho de 2012

Longo Túmulo.


Quando falamos em “Muralha da China”, “Pirâmides do Egito”, ou “Jardins Suspensos”, o positivismo nos impõe a ideia de empreendedorismo, “grandes monumentos = prosperidade” etc. Prosperidade sim, mas a que custo? A grande Muralha da China foi construída, sem dúvida, num período histórico no qual o governo chinês disponibilizava de muita gente (leia-se mão-de-obra) e muito recurso para a construção dessa gigante proteção nos arredores do território. No entanto muitas vezes não conseguimos ver o outro lado da moeda, e é pra isso que estou escrevendo esse texto. Para que vejam um lado diferente acerca desse monumento colossal, que se estende até os limites da nossa visão, a Muralha da China.
Shi Huangdi, o poderoso (e absoluto) imperador da dinastia Qin, conseguiu unificar o território chinês, doutrinou a população (Taoísmo) e acumulou, em recursos, grande riqueza (bem como gastou essa mesma). Apesar do que sabemos, de que havia terminado o período de disputas entre povos pelo território, com ideias desmedidas, sem conseguir ocupar o espaço de maneira com que pudessem governá-lo e administrá-lo, mesmo no império, diversos conflitos bélicos ainda ocorriam, principalmente ao Norte da China. A Mongólia, na época do início da construção da muralha, estava ocupada pelos hunos, tribo bárbara turco-mongol asiática nômade. Esses, dominando o uso do cavalo e do arco e flecha se precipitaram sobre a China (mais tarde até sobre as muralhas), infligiram vários danos aos chineses. Porém não só os hunos, como os próprios mongóis, mais tarde iriam atacar diversas vezes o império.
Devido a essas condições conflituosas o imperador ordenou, ambiciosamente, a construção de uma grande muralha,impenetrável e imponente. Inicialmente com o propósito de proteger seu território, utilizou muros já existentes ao Norte da China, que já serviam de proteção anteriormente. O sonho do imperador foi uma obra-prima, porém o labor de quem realmente deu vida ao projeto – megalomaníaco, diga-se de passagem – não foi nada confortável.
A muralha chegou a empregar cerca de um milhão de trabalhadores – equivalente a mais de um quinto da mão-de-obra chinesa – no auge do empreendimento. Esse número também é a quantia de pessoas que abandonaram suas vidas, seus trabalhos, seus sonhos – que até mesmo pararam de produzir recursos para o império (agricultura) – para dar vida à obra mirabolante do imperador. Trabalhavam como operários homens, mulheres, crianças e idosos. Essas crianças não tiveram infância; muitos jovens nunca mais retornaram para o que chamavam de casa. Estima-se que tenha perecido até 80% da população empregada na muralha, entre esses: soldados, camponeses e prisioneiros. Quem tentava fugir morria. Quem não resistia à fome morria. Quem não aguentava a severidade do frio, morria também. Os corpos eram enterrados na muralha (cuja sustentação era feita à base de barro socado), tornando essa um longo túmulo que cerca o país até hoje. Quem sabe se não há fantasmas de um passado negligente com o povo, que assombram os arredores até hoje?
A questão é: a que custo Shi Huangdi começaria o projeto, que hoje conhecemos como “A Grande Muralha da China”? Quantas vidas? Quanto trabalho? Quase 10.000 quilômetros de muro (mais que a largura dos Estados Unidos). E os gastos exorbitantes para satisfazer a vaidade do primeiro imperador? Aliás, além da muralha, pode entrar na conta, a construção do Palácio Imperial Chinês de Mukden e o mausoléu de oito mil soldados feitos de terracota, em tamanho real, contando até com a cavalaria chinesa. Devemos considerar também, que na dinastia Han e mesmo posteriormente o projeto continuou, cercando toda a China.
Apesar de ser um marco cultural, e uma defesa militar importantíssima, será que a muralha valeu todas as vidas? Há quem diga que sim, mas será que os que morreram por ela pensavam o mesmo? E as Pirâmides do Egito? Hahaha, sabe-se lá que infernos passaram essa gente ao decorrer da história. Então aprendam a pensar sempre pelos dois lados. Isso vai ajudá-los, mais do que possam imaginar.